DESFILE DA PORTO DA PEDRA: história da MODA?

17Feb10

Este post é para falar do desfile da escola Porto da Pedra, que este ano desfilou no Rio de Janeiro defendendo o enredo “Com que roupa… eu vou? Pro samba que você me convidou”. Foi meu programa terça à noite: sequestrei meu pai para ele assistir comigo, e fiquei lá, caderno de anotações à mão, para lembrar das partes mais bacanas e incluir neste texto. Estava pensando, enquanto a atração não começava, como é legal que a moda esteja se tornando cada vez um assunto que atrai mais atenção das pessoas, a ponto de se tornar um enredo de escola de samba.

Esta era a expectativa; agora vamos à realidade.  Antes de prosseguir, querido leitor, peço a você que perca alguns minutos lendo a sinopse do enredo, publicada no site oficial da Porto da Pedra. Tem também o samba, se você tiver paciência.

Entendeu? Eu também não. E isso é só o começo do “samba do crioulo doido”.

Vi em entrevistas dadas por Paulo Menezes que ele tinha a intenção de contar a história da moda na Sapucaí, tanto quanto seria possível nos 82 minutos que cada escola tem para concluir seu desfile. E que trabalho apresentado era resultado de intensa pesquisa sobre a moda e sua história; o carnavalesco teria  tido acesso uma média de 150 livros para buscar suas referências, além de ter visto diversos filmes.

Mas, no desfile, essa consistente pesquisa não se materializou; ou não se materializou tanto quanto o carnavalesco certamente quis.

O desfile começava com a comissão de frente: bailarinos caracteriazados como bonecas sem roupa e bonecas vestidas executavam sua coreografia, numa alusão à brincadeira de criança de vestir  e despir bonecas – um dos primeiros contatos que uma criança tem com moda (como idéia?). Eles dançavam próximos a uma casa de bonecas cor-de-rosa. Proposta simpática, mas Paulo Menezes perdeu a oportunidade de, usando a boneca mesmo como figura central, falar sobre a difusão da informação de moda antes do surgimento da revista de moda como conhecemos hoje: ela era feita através de bonecas, que viajavam pela europa trajadas com réplicas dos trajes que estavam em voga na época.

Daí surgem o 1º casal de mestre-sala e porta-brandeira. Sejamos justos: numa fantasia linda, super colorida mas ao mesmo tempo com partes em preto que as deixavam diferentes dos outros casais de outras escolas.

Primeiro carro alegórico: uma alusão à “moda” surgida na pré-história, a partir da necessidade do homem de cobrir o corpo. Assim, fantasias inspiradas nos Flisntones tomaram conta de todo o carro: gravatas, cinturas marcadas, cores primárias e fortes, penteados – estética do desenho animado, mas que está a quilômetros do vestuário do homem pré-histórico. Mas tudo bem, é carnaval… réplicas  das roupas da época deixariam desfile literal demais e sem poesia, certo?

Daí seguiram representações de alguns períodos históricos importantes da cultura ocidental: Grécia clássica, Roma, Império Bizantino, Idade Média, Renacimento, Barroco, Rococó,  Período Napoleônico; carros alegóricos, alas e fantasias. As fantasias eram leituras de trajes da época, e os carros alegóricos, leituras da arquitetura dos períodos, e não da moda. Apenas dois ícones foram trazidos: Rainha Elizabeth I, representada pela universitária-do-vestido-rosa Geyse Arruda;  e Maria Antonieta, em forma de boneca gigante, acompanhada de  uma corte de dançarinos lindamente fantasiada.

Passado o Império de Napoleão, representado por um mini-carro alegórico que trazia imagens dos famosos  vestidos-coluna da época – mas talhados de forma que nem os comentaristas do desfiles entenderam do que tratava, tomando os vestidos por colunas gregas literais – acontece um salto no tempo:

Vamos para os hippies!!!!! ?????? !!!! E logo após, para uma ala chamada “Quero ser Naomi”, em que rapazes vestiam perucas de cabelo liso, uma cópia do vestido Mondrian de YSL, e um casaco verde de um material parecido com pelúcia. YSL depois do moivmento hippie + casaco verde pelúcia???????

A partir daí, Paulo Menezes joga fora de uma vez a cronologia, e mistura muitas referências em um único carro alegórico: art noveau, quadrados coloridos à la de stjil, torsos que em muito lembravam frascos de perfume de Gaultier – vestidos com criações de estudantes de moda – e Chanel, representada pela atriz Marília Pêra, que já interpretou mademoiselle nos palcos, como um dos destaques do carro.

Para terminar, alas que homenageavam os estilistas brasileiros – vários – e traziam fantasias que eram a visão do carnavalesco sobre o trabalho de cada profissional. E o Carro da Moda, carro alegórico de dois andares: no andar de cima, rolava solta a festa de Lenny Niemeyer, em pessoa, cercada por diversas figuras do mundo da moda, entre estilistas, modelos, produtotres de moda…

A escola trouxe para a avenida um desfile bem executado – há que se pensar no ano inteiro gasto pela comunidade para tornar realidade a idéia do começo do ano – mas que se perdeu em sua intenção principal.

Paulo Menezes conseguiu contar, no máximo, a história do traje, e não da moda. Mas o que ficou parecendo é que ele escolheu momentos culturais importantes na história ocidental e mostrou o que se vestia – por acaso – em cada época retratada. História da moda mesmo, não vi… Ele poderia ter falado da Revolução Francesa – fortalecimento da burguesia e queda das leis suntuárias – , da máquina de costura e do tear – Jacquard principalmente – , de Worth, do prêt-à-porter, da ligação da moda com música no século XX…

Fico sempre com a impressão que moda é  um pouco tratada de brincadeira, sempre mostrando o lado mais volátil da sua vocação. O lado mais interessante, mais sólido,  nunca aparece. Mas é assim no cinema, nas novelas.. o melhor é curtir o carnaval e parar de pensar… pensar para quê?

Momento do desfile que eu realmente gostei: meio incrível falar assim, mas adorei a aparição de Geyse Arruda – pela primeira vez, com uma roupa bonita. Sua fantasia era uma alusão ao seu vestido rosa da discórdia, e funcionou com os elementos do vestuário da rainha inglesa acrescentados. Basta saber se o carisma de Geyse pode durar tanto quanto o de Elizabeth I…

Em tempo: a fantasia de Luís XIV usada pela bateria era bem feinha, e para mim foi o ponto baixo do desfile. Além de meio “murchinha”, ela acabava do joelho para baixo: nada de meias e sapatos enfeitados – com era do gosto monarca – apenas um sapato dourado que parecia um desses sapatos de ficar em casa quando está frio. O Rei Sol teria mandado cortar a cabeça do carnavalesco se visse…

…………………………………………………………

Quem arrebentou mesmo no espetáculo visual foi a Unidos da Tijuca… e mesmo sem ter a moda como tema, lançou mão de imagens interessantíssimas através de roupas – vai ficar na memória a comissão de frente e sua troca de roupa mágica. Não à toa, a escola levou todos os prêmios possíveis, inclusive o de escola campeã de 2010!



2 Responses to “DESFILE DA PORTO DA PEDRA: história da MODA?”

  1. 1 Zoka

    Gostei muito da sua visão do desfile, é issso mesmo falar sobre a História da Moda, não é fácil, existem muitos trechos que linkan um período a outro e as pessoas simplismente deletam.
    Concordo qdo vc diz que ele deveria ter fechado em um período, seria mais interessante e fácil representar, não desmerecendo em momento algum o trabalho do carnavalesco, mas acho que focar um períod, década anos 60/70 seria fantástico.
    Acredito que fata pouco para moda ser vista absolutamente om negócio, mas que soltamos purpurina para ter charme, pois tb adoramos um bafon


  1. 1 HORA DE DIZER OI AO FKM # MAG! « FASHION KILLS ME

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